Pensamento e Arte


23/03/2009


Este homem nu sou eu

 

rebobinei. rebobeei. voltei à primeira pessoa. eu só quero saber do que pode estar perto. sigo pensando nos liames que ligam o mim ao ti. eu a você. a possibilidade ao acontecer. eu só quero estar certo de que você vai estar perto. esse homem nu, grotescamente ridículo, sou eu. esse jeito manso, dengoso e manhoso, é seu. em meus olhos, o brilho translúcido de fragmentos de vida expostos ao sol do equador. pedaços de vidas gestadas ao sul do coarador onde eu espiava as calçolas das meninas de meu tempo. restos de porres, ressacas medonhas. esse homem nu, creia, sou eu. minhas vestes eu perdi pelo caminho. sinto com prazer este ventinho frio que açoita meu corpo nu. você pode, por favor, desligar o ar condicionado? você pode, por favor, virar um pouco de lado? você pode, por deus, me passar estes morangos que mofam ao seu lado? eu estou pensando numa curva que tem lá no pernambuco quando eu vou voando pra catende. você não entende de nada. quer parar? quer fazer xixi? quer descer? mas não era você quem queria saber quem eu sou? eu não tenho carro, nem curvas, exceto esta de que te falo. e catende. lá sou amigo do rei. tenho a mulher que quero? tá bom. a grama eu escolherei.

 

 

 

Escrito por Edwar às 23h05
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10/02/2008


Eu quero re-bobinar

 

o filme acabou, mas eu segui acompanhando o letreiro com atenção. não importavam, tanto, os créditos e toda aquela chatice que segue embalada por um sobe e desce infindável de nomes que parecem ter sido colocados ali pra ninguém prestar atenção. na verdade, nem mesmo na perda de tempo eu pensei naquele instante. eu me esforçava pra ver o outro lado, assim como quem espia pelo retrovisor, em uma curva, na luta inglória por continuar enxergando o que, como se sabe com toda certeza, os olhos sempre perdem de vista. encontrei, naquele letreiro, um pretexto pra pensar o além do fim. foi um lampejo. me ocorreu ali, naquela hora, que só sei ser plug-in. e não me refiro, nem pense nisso, aos bits que nos conectam agora, mas aos plugs invisíveis, sensíveis, através dos quais nos conectamos uns aos outros. ontem eu ouvi fredie e fiquei morrendo de saudade de mim. era uma tarde quente, aquela, quando queen elizabeth olhou e piscou pra mim. in memoriam pacem. então, com o letreiro, eu pensei: puxa, no melodia tem uma mina que gosta de mim. hoje eu ouvi eliane e fiquei morrendo de saudade do tempo que correu velozmente nos últimos cinco anos. desafinado, o melodia não é mais. eu adorava uma camisa vermelha, cafona, que me matava de calor. então me deu uma vontade danada de pegar o controle remoto e rebobinar. voltar a ser bobo. um poeta sem eira na beira de um colapso nervoso. o letreiro seguia e eu procurando engatar uma marcha ré. boa viagem. eu lembro, agora, da moça bonita que jamais pude ver na praia de boa viagem, mas cujo hálito eu sei ter o gosto do sol. amanhã eu ouvirei alceu valença e, com todo cuidado, vou escolher a saudade que irei sentir. sim, porque, por hoje, os quatro cantos me parecem vazios e silenciosos. são o marco zero. zaping. vídeo of my life: chuvisco...

Escrito por Edwar às 22h50
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22/01/2008


Salve o lindo pendão dos seus olhos

 

deslizo rápido entre as faixas. no rádio ou na tv. sou o billy the kid do controle remoto. sintonizo os meus dias no dial da tua existência. pena eu não saber como te contar, pois eu já sei o que os meus olhos vão querer. eu sei que ali, na grama do aterro sob o céu, é possível observar as estrelas e adivinhar, nelas, por elas, depois delas, os versos de amor com que te cerco. teresina tem uma avenida nova que engole a ponte wall ferraz. teresina tem uma avenida velha que me leva de volta pro mundo fantástico e misterioso onde tudo começa e se renova, indefinidamente. a estrada tem solavancos, eu sei. mas não me importo. eles são parte do mistério. teresina tem um céu lindo, mas é recortado por coriscos nervosos anunciando que a noite não tem luar. lá onde meu pensamento passa como um raio, eu corro ao encontro daquela brisa que me acertou levíssima à beira-mar, na praia do futuro, e descubro, com saudade, que o mar de teresina fica no céu da boca da menina. faz um rock urgente, por favor. eu quero andar por ruas e ruas. eu quero sentir a levíssima embriaguez de um absinto proibido lá em porto de galinhas. eu quero te mostrar minha nudez quase ridícula em tambaba. em campina grande, vou te ensinar a encontrar o melhor lugar no big mix. fui até natal, salvador e paraíba, mas jamais estive em bacabal. mas não faz mal, pois com você o céu é azul, quase transparente. essa noite eu sonhei que você tava no outro quarto e eu ia lá e a gente se punha a perseguir pipas por ruelas soturnas antes que as bombas explodissem no afeganistão. a gente se tocou e, ao toque, o amor se fez. fizemos amor. eu te juro: o beijo não vem da boca. eu te garanto: o mundo não é chato. eu te ensino: esse cheiro tão bom que você sente, meu amor, vem dos morangos mofados que deixei sobre a mesa. eu te conto: de tanto andar por aí, eu agora me resolvo e vou buscar você, pois minha namorada, muito amada, não entende quase nada, e não vem de madrugada procurar por onde estou. quando eu chego em casa, nada me consola. e como esse papo já ta qualquer coisa, fica combinado assim: salve o lindo pendão dos seus olhos. soy loco por ti.

 

Escrito por Edwar às 22h22
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21/12/2007


Lucy in the sky with diamonds.

 

eu não sabia se ela sabia do que eu queria que ela soubesse, mas eu pensava puxa, eu estou tão a fim que, Deus, fulano Deus das estrelas que alumiam a noite de cidadezinhas como a minha, de repente ela pode até saber porque, de repente, eu posso estar vivendo minhas aventuras na cidade de thor. então, quando ela apareceu no salão, flanando altiva sobre tudo e sobre todos com sua beleza juvenil, eu pensei puxa, eu adoraria remover lentamente esse vestido. tão lentamente que não importaria tanto o removido, mas a remoção, digo, remoçado. foram vinte ou trinta anos e eu pensei em olhar de soslaio e dizer pra ela que ela, a bela, era pura alquimia. então fui dormir e sonhei com uma menina linda que flanava sobre tudo e sobre todos com seu belo vestido juvenil. as vezes, quando penso perco o senso e isso é incrível. é. juro. eu tava ali e, por mais insensato que isso fosse, eu apenas tava. pink floyd berrava algo mas eu não ouvia. meus afetos estavam mais interessados, talvez, em cacaso ou alice ruiz, cúmplices possíveis das metáforas que, depois, eu usaria para compor um quadro em que há estrelas no céu, afeto no chão, um vento soprando lá do alto da rua e, de vez em quando, hipócritas rondando ao redor. era no outro dia de dia, devo dizer a você, quando eu ainda pensava no vestido que vestia a leveza daquela beleza juvenil. não se perca de mim. era já noite. de noite. a madrugada se esgueirava em direção à manhã quando eu temi o ridículo de declamar versinhos sorridentes. mas, como te disse, eu tava ali. e já não me importava com coisas como sensatez. o vestido, que na noite anterior descera aquela rua sacudido por um vento ateu, já não era mais. quando suas mãos tocaram em meu rosto e eu apoiei minha cabeça, remoçada, em seu ombro, quase chorei. o vento que soprava do alto da rua nos beijou lenta e sofregamente. eu pedi seus olhos e, quando os tive, fiquei boiando neles. eram fortes, lindos e profundos. minha boca, remoçada, quase tocou a boca dela. centímetros, talvez milímetros, separavam agora meu querer daquela boca juvenil na qual eu mergulharia. respiramos no mesmo ritmo. lembro que pensei em quão incrível era conseguir algo assim. as estrelas se amontoaram sobre aquela ruazinha querendo nos ver. por um momento, a madrugada parou sua caminhada frenética rumo à manhã e ficou absorta nos olhando. um gato, branco, se esgueirou por sob o carro de cujos alto-falantes pink floyd nos espionava. um saco, que jazia triste e velho sobre a calçada do outro lado, quase ganhou vida. suas mãos em meu rosto. minha cabeça em seu ombro. mais uma vez pedi seus olhos. quando os tive, saquei que um instante mágico se fizera. ficamos suspensos e, enquanto flanávamos sobre as estrelas, quase tive pena dos velhos alquimistas que jamais tocaram a pedra filosofal. sua respiração tocou a minha e eu a abracei suave e carinhosamente. quando me deu sua boca o fez com a elegância de uma multidão de princesas européias. um ventinho frio, que descia do alto da rua, nos envolveu e agarrou-se a nós, como se quisesse fazer parte daquela alquimia. então nos beijamos. enquanto minha língua brincava em seu céu da boca, eu pensei: eis aqui revelado, mais uma vez, o lado claro, cristalino e cintilante da lua.

Escrito por Edwar às 23h06
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25/09/2007


a magrela

 

ao geraldo castelo.

 

era uma magrela desajeitada. minha vó diria que ela era “desaconsoada”. era mesmo desconsolada, desbotada, démodé. mas eu a adorava. não que tivesse sido com ela a primeira vez, mas com ela o zunido do vento em meus ouvidos fora diferente. também pudera: ela compunha o quadro, quase surreal, dentro do qual eu vira, pela primeira vez, a luz neon pintando a rua noturna de uma cidadezinha que eu então enxergava grande. eu sei que já te contei isso e que você agora, exatamente no momento em que o seu olho cai sobre o último “n” com o qual grafei neon, proclama que eu sou repetitivo e chato e que não quer mais seguir comigo. então eu olho em volta e, só me restando o teclado, além de você – que me enxerga fosco por detrás da imensidão de modens, placas, bits e fios que nos separam e conectam –, me ocorre redizer que eu sou amável e terno, medroso, manhoso e dengoso. sou lírico e trágico como vicente celestino. e acho que tinha mesmo algo de ébrio em meu encontro com a magrela. não me lembro quando a vi primeiro. não sei onde, dentro daquele quadro de neon, eu a segurei, montei nela e cavalguei sofregamente com o vento açoitando minhas orelhas. você deve dizer que eu minto porque, afinal, como dizer que não lembro se sinto, ainda, a sensação do vento em minhas orelhas? tá certo. se sinto minto então são mentiras as coisas que te digo agora. mas foi. creia. ao longe operários recolhiam suas ferramentas depois de um árduo dia de trabalho numa pracinha em reforma. a noite caía lenta e preguiçosamente. alguns postes, altivos, eclodiam suas luzes iluminando a rua que mergulhava na semi-penumbra. eu imaginava minha mãe fazendo algo que eu jantaria daqui a pouco. a pracinha agora, já sem o vai-e-vem de operários ávidos por suas casas, mulheres, meninos e novelas, parecia uma árvore de natal. baldes de plástico, de diferentes cores, balançavam em um cordel com luzes acesas em seu interior sinalizando valas abertas durante o dia. lembro que achei genial a idéia da demarcação com baldes. lembro agora que não me lembro se vi isso em outro lugar, em outras ocasiões. lembro que no interior do bar (seria uma mercearia?), em cuja calçada eu inundava meus olhos com as luzes dos postes e dos baldes pendurados, podia adivinhar meu irmão bebericando cervejas com seus amigos. a magrela, encostada à parede em sua impensável beleza desajeitada, provavelmente me fitava. mas eu, certamente, não pensava nela. estava muito ocupado enchendo minhas retinas com as luzes daquela quase noite. talvez, quem sabe, eu adivinhasse que precisaria dessas luzes-metáforas para contar, agora, este conto que conto a você. então o meu irmão emergiu do interior do bar. eu ouvia suas passadas e tinha certeza que era o seu caminhar. eu sempre fui bom nesse negócio de sacar os caminhares. me voltei para ele com restos quase ofuscantes de luz em meus olhos. ele não deu qualquer pista de que compreendia/desconfiava/sacava minha suruba ótica. sorriu. sua barba e hálito chegaram tão perto de mim, quando ele me falou, que lembro ter desejado prolongar maximamente o momento. ele me disse: ­– é macho mermo?! eu assenti, sorrindo. ele então avançou a senha mágica: se você tiver coragem de ir sozinho, pedalando, pra casa, a partir de hoje essa magrela é sua. eu não lembro o que respondi. na seqüência, minha lembrança alcança apenas um moleque pedalando velozmente pela avenida brasil, em maringá. enquanto a zona dois ia ficando para trás, e o vento assoprava segredos em meus ouvidos, eu pedalava minha primeira bicilceta.

Escrito por Edwar às 21h29
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05/07/2007


Eu sou o superbacana!

 

é assim: tudo se passa como se eu tivesse fumado um baseado e saído à toa, cachorro urubu, pelos confins de um céu cheio de mistérios. e então, puf!, acordo sem sobressalto em algo muito bom. tem sempre uma mulher, linda, areia demais pro meu caminhãozinho, que me diz algo assim singelo enquanto me olha com um olhar que é síntese de marilyn monroe – antes de agripino de paula, ressalte-se – com paula toller. a primeira vez foi nos idos de mil novecentos e oitenta e alguma coisa: ela me beijava e pedia desculpas por algo que, dizia ela, acontecera na noite anterior. juro: até hoje não sei do que se tratava. mesquita diz que é mentira, que isso jamais aconteceu. viagem minha. mas aconteceu sim. e o incrível não é o acontecimento, em si, mas o quase dejavu que ele é. eu ainda sinto, tantos anos depois, aquela mão terna sobre meu rosto, a língua quente em minha boca e as palavras chorosas caindo suavemente sobre meus ouvidos. fiz cena, devo ter imitado aqueles personagens cafajestes de filmes tipo B coçando o saco. mas não é isso que importa. eu quebro cabeça é pra lembrar do antes. onde/como eu estava quando aquilo tudo se configurava? tudo que sei é que ela veio ao meu encontro, interrompeu meus lentos passos ressacados no meio da praça, sob um sol douradamente lindo e juvenil, ignorou os olhares atônitos que se atiravam sobre nós, deslizou sua mão em meu rosto, disse algo choroso em meu ouvido e enfiou fortemente a sua língua em minha boca. moraes moreira explodiu sobre os meus ouvidos enquanto ela se afastava sobre uma bunda que rebolava promessas mil. e eu saquei: sou o superbacana.

Escrito por Edwar às 15h10
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17/05/2007


Além da barragem tem um pé de umbuzeiro.

 

rua do prado, Deus, circuladô de fulô por onde os circuladores circulam amor e dor. ái! como dói e ao mesmo tempo afaga a lembrança que me atravessa agora. eu gostaria de contar mas não tenho talento pra lembrar. como é mesmo o nome de minhas amigas, irmãs quase siamesas que escondem a mim e ao meu amor adolescente? ela me beijava e eu sentia sua língua, morna, resvalar entre os meus dentes. uma descarga elétrica, impactante, bolinava entre minhas pernas e fazia crescer, por sob um calção elite branco, com listras rubro negras dos lados, o meu sexo inocente, indecente, rigidamente carente. eu sabia de cor o formato do sexo dela, adivinhava seu cheiro, mas não ousava tocar. já era muito ter que ficar experimentando a sua língua bolinando a minha língua e ainda me concentrar pra negociar com meu sexo jovem e afoito um retardamento de seu êxtase. em casa eu te dou tudo, eu dizia, não goze agora porque eu vou morrer de vergonha. era sempre de manhã, porque as tardes eram pardas com listras verticais azuis e soturnos kichutes pretos nos uniformes colegiais. incrivelmente, à noite, quando todos os gatos são pardos, era mais difícil esconder-se. eu sou amável e terno, medroso, manhoso e dengoso. sou lírico como caetano. então, como eu dizia, era de dia. era sempre dia, ainda que fossem noites com longas cartadas de suéca. meu amor adolescente, inconsequente, urgente, escorria pelos paralelepípedos da rua do prado. os panos verdes das sinucas. o gosto adocicado de rum com coca-cola. um vento quase frio soprando lateralmente o meu rosto enquanto eu me espreguiço sobre uma cadeira de macarrão com a armadura de metal enferrujada. o doce claro, sem nenhuma dúvida, do tijolo de leite de carlito. a fumaça medonha de um holywood fodendo o meu pulmão. trepidant’s na palhoça. cachaça no baleado. baseado certeiro. o meu amor adolescente, inconsequente e urgente escorrendo pelos grotões de minha alma. além da barragem tem um pé de umbuzeiro. Confira.

Escrito por Edwar às 14h53
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28/04/2007


 

A Dilson Tavares, seu amor e sua irmã, por sentirem comigo.

A Daniela, por balançar o chão de minha praça.

A Caetano Veloso, por ser e por cê.

 

Havia uma imensidão de cotovelos que se acotovelavam e milhares de olhos que miravam outros olhos e pele e carne e osso e nada químico. É incrível. Em muitos anos, era a primeira vez, numa noitada, em que eu era apenas pele, osso, carne, alguma coisa prestes a entrar em ebulição em minha alma e nem um hi-fi. Nada. Eu olhava em volta, ouvia uma sinfonia por sobre o burburinho das vozes e lembrava que a brasilidade é uma doença fácil, fértil, fóssil, fútil. Diferentemente dos americanos do norte. A iluminação, o cenário, a pose, eu, meus amigos e meu amor caminhando por dentro da noite. Repassei rapidamente cada uma de minhas frases prediletas entre suas frases diletas. Preciso dizer que te amo. Então lembrei, subitamente, de seus primeiros pasquins em londres, quando o sol, a só, depe de si, digo, despede-se, desce pé ante pé e emerge diante do urro da multidão. Ilumina a noite de Teresina enquanto eu penso em quão maravilhoso é um acontecimento como aquele, em que se pode reunir milhares de ruídos em um uníssono. Quase como Miles Davis, mas certamente melhor. E então ouvi, mais uma vez e silenciosamente, que seu corpo é a quarta dimensão de seu canto. Quais seriam as outras três? Balança o chão da praça, meu amor, cante cajuína quando você me ouvir cantar. Dois e dois são cinco? Essa ciranda, quem me ensinou? Agora sim: lá no oriente tem gente com olhar de lança na dança do meu amor. Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína!

 

Não! Nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui. Por uma razão simples: quando tu me deste a rosa pequenina vi que és um homem lindo.

Escrito por Edwar às 15h58
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15/04/2007


É preciso dizer de novo: Não apresse o rio, ele corre sozinho.


Traga-me um copo d’água, tenho sede. Tenho porque tenho esta sede que não cessa. Você sabe de que sede estou falando? Isso! Apenas sede. E é incrível como esta sede, de repente, me coloca em um tubo de tempo e eu ouço Gil cantando e imagino as grades da prisão que lhe prendiam e inspiravam. Volto a mim. Calculo lentamente o espaço que me separa da geladeira. Também lentamente roço a língua no céu da boca e fico pensando em Marcel Proust. Prolongo mais um pouco a minha sede para utilizá-la como instrumento de busca do tempo perdido. Minha língua. Minha boca. Sorrio sorrateiramente agora (não o sorriso entredentes de Torquato, mas um sorriso de repente) quando imagino um turbilhão de sensualidade. Tudo por causa da minha sede. Então concluo que tudo está dialeticamente recoberto por dois lados antagônicos. Tudo é bom e ruim, a depender do uso que damos às coisas. Mais uma vez minha língua, meu céu da boca, minha sede. Vou saborear a água que beberei com sofreguidão, mas sem pressa. E estarei ouvindo um hino da gestalterapia – “não apresse o rio, ele corre sozinho”

Escrito por Edwar às 10h20
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01/04/2007


O que é um autor?

 

Vem de dentro de mim, assim como um rio que jorra em direção ao mar, o questionamento que faço agora: onde a fronteira entre autor e leitor? Onde a fronteira entre eu e você? São pedaços de mim que eu te ofereço, assim como quem rasga o último chiclete e o aponta em direção a ti. Mas não se iluda: não te dou apenas a mim. Não consigo ser só eu. Do mesmo modo: você não coincide consigo mesmo. E olhe que não se trata de metamorfose ambulante ou coisa do tipo. É uso. O que expresso revela a deformação de discursos que me antecederam e aos quais não é possível usar sem os desalojar. É como o vinco da calça bem engomada que vai desaparecendo à medida que a uso. Olhei detidamente as metáforas de Jessier Quirino; ouvi atentamente os textos de Foucault; disse calmamente os impropérios de um taxista insano; proferi solenemente a oração que aprendi para a primeira comunhão; atarantado pelos automóveis, meus olhos foram varados pelo neon, enquanto Ismália, ensandecida, pôs-se na torre a sonhar; três da madrugada, tudo e nada. Você me chama. E eu vou. Por que não? Lembro que quando saí de casa trouxe a viagem da volta gravada na minha mão. Todos os fatos que explico, portanto, são atos de criação. Ops! De deformação. Punição. Eis: os textos só passaram a ter autores na medida em que os discursos se tornaram transgressores e, então, os censores precisaram contê-los na origem. Então é isso aí: pedaços de mim, que finjo ser eu, pra você, que pensa ser um idêntico a si mesmo. Curiosamente, quem viveu todos os dias de paupéria também comprou Don Quijote de la mancha. Entendeu?

Escrito por Edwar às 10h08
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24/03/2007


João Neto, Piazza, Mesquita e yo!

 

O que acontece quando o tempo nos atravessa? Porque éramos todos tão magricelas? Por onde nossos amores vazaram e se perderam? Eu penso em todas essas coisas enquanto olho a fotografia que me chegou via net. É incrível. Eu sou Fernão Capelo Gaivota e posso sobrevoar a torre da igreja de Pio IX enquanto experimento os amores que gravitam em torno do abrigo. Eu posso abrigar agora, acima de todas as coisas que impliquei em minha vida, esse pedaço colorido e alegre dela. Procurarei dizer cada uma das sensações que senti, mas, por hoje, eu apenas as sentirei.

 

Escrito por Edwar às 18h13
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17/03/2007


Besteira uma vírgula, viu?

 

, porque eu continuo querendo começar com uma vírgula. Em parte porque eu sei que walt whitman é algo assim como falar em português com um grego que não sabe inglês ou, mesmo, falar em grego com brasileiros que não sacam de alemão. Algo assim como aprender japonês em braile. Aí eu tava no banheiro, morrendo de rir, e contando pro meu amigo que ela tinha me cantado e então ela na janela bela. Fiquei rubro. Ah! A barba ruiva de whitman. A poesia turva de whitman. O canto corajoso de whitman. E então eu pisei calmamente cada uma das folhas das folhas de relva. Assim mesmo: folhas das folhas. Havia milhares de folhas secas de marmeleiro e aquele cheiro era uma coisa. A vereda era aconchegante e quando uma nambu espantou-se ao meu lado eu quase morri de medo. Ao longe eu via a casa de mãezinha e, depois dela, eu adivinhava a casa grande e o fogão a lenha crepitando algum queijo quente de tia Maria. Ráaaaca réeaa, diabo! Uma pedra zunia e estalava nas costelas de alguma rês mais afoita e eu ficava pensando na dor que ela poderia pensar. Sempre me perguntei se vacas pensam. Até quando aprendi que sem tesão não há solução. Eram calcinhas as mais diversas, penduradas em renitentes pés de umbuzeiro. E dentro delas as entrepernas que eu manusearia no banheiro na hora do banho. Sorrio sorrateiramente pensando no que pensariam as donas das calcinhas se, num átimo, tudo ficasse como dantes no quartel de abrantes. Ótimo. Tá bom. Aí, como já te contei, eu dobrei em meu fusquinhazinho à esquerda, na ladeira da pedra mole, fiz breve parada pra mijar, no vôo da morte, e enquanto mijava olhei calmamente pra baraúna da mijada. Aí o telefone tocou e eu fui ver quem era. Não sem antes esbravejar algum palavrão.

Escrito por Edwar às 17h20
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08/03/2007


C transou?

 

Tá bom. Certo. Mas, por favor, deixa eu ficar odara. Melhor: exija que eu fique odara. Cuca e tal. Eu li um romance e era assim: no outro dia eu cheguei e disse: – qual o último romance que você leu? E fazia um frio arretado. E o caçador de pipas me deu todas as neuras das quais eu quero fugir. Eu minto: jamais persegui pipas. Sim: neuras. Eu acho que tenho tanta coisa pra contar q   ue vc nem quer ouvir. Aí eu li o beijo não vem da boca e ela me deu. Dizia assim: aí um trovão e tal e eu pensei isso é tão absurdo mas, enfim, transamos. Foi bom. Vc transou?

Escrito por Edwar às 22h19
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10/02/2007


Tempo, eis um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho

 

Havia sol, mas eu lembro que havia uma aguinha fria na floresta de mata-pasto por dentro da qual eu corria com meus amigos. As folhas molhadas, as quais traziam de volta a sensação da chuva da madrugada, roçavam em minhas canelas e exalavam um cheiro que não sei descrever. Sei que era bom. Não lembro agora o rosto de meus amigos. Mesmo alguns nomes já se perderam. Mas ouço Mesquita, Ivan, Bertinho e Naka arfando ao meu lado enquanto corremos em direção ao curral de Chiquinho de Lulu. E então se deu o meu primeiro contato com o tempo. Aconteceu, pela primeira vez comigo, essa coisa de saber que o tempo passa. Até então eu estava suspenso num instante mágico. As casas de esquina, como a minha, tinham oitões em torno dos quais a molecada da rua vivia a vida. Jogávamos bila (alguns chamam bola de gude), empinávamos papagaio, imitávamos os espetáculos do circo, chutávamos uma bola de plástico com o nome de Pelé e dávamos os nossos primeiros passos rumo à paixão. – Menino, tu viu o Mesquita? – Tá lá no oitão do Castelo! Era sempre assim. O oitão, terreno baldio que teimava em existir ao lado das casas pobres de esquina, era uma espécie de lugar sagrado para nós. O nosso shoping center. Apenas agora, depois de décadas sofrendo o tempo, espoucando rojões no reveillon, me dou conta de que o que tornava mágicos os oitões era o fato de que ali o tempo não passava. Pelo menos não passava até o fatídico dia em que corremos em direção ao curral de Chiquinho de Lulu. Aquele não era um curral comum, pois Chiquinho, o pai de Naka e dono da mais importante bodega da cidade, era rico. O seu curral, o qual ficava ao lado do de seu Quinco Tonheira, o pai de Ivan, tinha a parte frontal composta com alvenaria. Ao invés das costumeiras cercas de freixeira apontando suas varas pontiagudos para o céu, o curral de Chiquinho exibia um muro de tijolos avermelhados e envelhecidos. Lembro que em algumas partes os tijolos estavam carcomidos, esfolados, assim como se alguém os tivesse raspado com uma colher de pedreiro. Não era isso, certamente, mas o que nós – pelo menos eu – pensávamos, era sempre alguma explicação que livrava o tempo de sua culpa. Nós nem sequer tínhamos a noção de novo e velho, pois esse contraste não se exibia para nós como o faz agora. Mas então deu-se minha descoberta do tempo: certamente antes da chuva que abençôou a cidade durante a madrugada, alguém escreveu, por sobre o muro avermelhado e em uma cor amarelo berrante, a expressão “Adeus ano velho feliz ano novo”. Não havia vírgula ou outra pontuação qualquer, apenas a expressão berrando em nossa direção. Lembro que paramos o nosso trote a ficamos alguns minutos admirando a frase pichada na parede. Já não lembro mais dos comentários que fizemos, tampouco de nossa aventuras subsequentes naquele dia. Mas sei que deu-se ali o meu encontro com o dolorido aprendizado de que o tempo é algo que flui independente de nossas vontades, nos atropelando.

 

Escrito por Edwar às 10h41
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10/12/2006


Dil, Jota, as palavras e as coisas.

 

É assim: estou sozinho e então procuro, dentro de mim, as matérias que constituirão isto que vou te dizer. Quase vejo uma mão escarafunchando velhas gavetas a procura de algo. Não há poeira. É como aqueles móveis velhos que a gente lustra justamente para reafirmá-los velhos. Há pouco o telefone tocou. A voz do outro lado inoculou doçura em mim. Agora, ainda com a lembrança e com a sensação da voz do outro lado, eu vou mergulhando em mim. Claro. Sim, claro que lembro. Sempre lembro de Marcel Proust quando escarafuncho o tempo perdido. Ainda ontem Jota, com limpos acordes de violão, me deu uma boa dose desse tempo. E eu viajei maximamente na possibilidade desse mergulho. A canção era muito linda e agora, com o fantástico tagarelando lá na sala, eu fico me esforçando, em vão, pra reouvir os acordes. É danado esse negócio de lembrar. É quase como lombrar. Eu sorria loucamente enquanto dava voltas em torno do abrigo, em PIO IX. Fora só unzinho, mas eu chapei. Dil ficou puto. Me botava no carro e dizia “meu irmão, cê tá um verdadeiro porta bandeiras. Todo mundo tá se ligando”. E eu prometia que não ia mais rir. Mas não conseguia. Agora me lembro que já não lembro mais como terminou. Mas foi bom. E me trouxe até aqui, onde posso ver em panorâmica o bom do bom. E ao dizer isso eu penso na relação entre as palavras e as coisas. E decido que, quando terminar essa cerveja, vou inventar uma ou duas palavras novas. Ainda que velhas, mas eu as lustrarei.

Escrito por Edwar às 22h00
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