Pensamento e Arte


07/09/2016


A cidade da idade ou a facilidade da fácil cidade.

“Eu agora também vou bem, obrigado. Obrigado a ver outras paisagens, senão melhores, pelo menos mais clássicas e, de qualquer forma, outras”. Há quarenta e quatro anos (setembro de 1969), em Paris e a caminho do exílio em Londres, Caetano iniciou com essa frase um texto que publicaria no Pasquim. Nessa primeira semana em Lisboa eu me lembrei muitas vezes de Caetano e, também muitas vezes, do show que fez aqui no mesmo sessenta e nove e no mesmo caminho. Eu gosto de idades. Digo, cidades. Idades de cidades. Eu gosto de Lisboa porque de repente é como se Campina Grande virasse Teresina. Talvez porque eu esteja cansado, à maneira de Caetano se cansar das coisas, eu estou adorando Lisboa. Sim, eu sei que essa impressão ainda não vale porque, afinal, Daniela tem encurralado a solidão e a impedido de bater à minha porta. Até hoje. Depois, como uma besta esbaforida, talvez bata. Mas como o meu coração abestalhado também bate quatro por quatro, sem lógica, se isto vier a acontecer eu esvazio uma garrafa de vinho e volto a me refugiar em Caetano. Mas o fato é que, como eu ia lhe dizendo, estou adorando Lisboa. É o lugar mais cosmopolita que já conheci. E para quem, como eu, vive a escarafunchar no passado, é um lugar único. Óbvio que eu não me refiro aos castelos e torres que emergem da tagarelice cheia de mofo dos guias de turismo. Eu falo da cidade da idade, ops, da facilidade, da fácil cidade que é Lisboa. Nos quatro cantos cheguei. E, desde já, anoto uma primeira impressão: o que mais fascina em Lisboa é a possibilidade de transitar, andando apenas algumas quadras, entre o Oriente e o Ocidente. O paço do comércio, com a rua Augusta cheia de malandros otários que compram maconha de meninos ciganos que fingem vender maconha enquanto passam um macerado que contém várias ervas exceto a maconha, está a poucos passos da região da Alfama. Até aí, o frisson de “auto-carros” cheios de malandros otários. Depois, mais alguns quarteirões e emerge a Mouraria. Bairro pobre. Lugar ao pé do morro no alto do qual os árabes fincaram um castelo enorme e labiríntico que, conquistado pelos cristãos, no século XII, passaria a ser chamado de “Castelo de São Jorge”. Mas o que prendeu meu olhar, o que me fascinou, não foi o castelo, mas o pé do morro. Confinados ali depois de derrotados, os mouros erigiram um pedaço do oriente atravessando Lisboa. Como um pedaço de churrasco que fica no entredentes incomodando. Eu gostei da Mouraria. Eu gosto de tudo aquilo que desafina o coro dos contentes. Eu estou adorando Lisboa. Não a cidade tão enfaticamente consumida por turistas, mas aquela que, pela semelhança, me ensina o valor da diferença. De noite, todo gato é pardo. Digo, de noite todo pardo é gato. Ou melhor, vá me desculpando, pois não! Eu sou péssimo nessa coisa de passar de uma coisa para outra coisa. Mas eu te conto: o Chiado. O bairro alto. A baixa do Chiado. Ali, enquanto assistia jovens turistas bêbados vagando pelas ruas, pude reouvir os acordes dissonantes dos beatles entoados por duas mocinhas brasileiras que vagueiam de bar em bar oferecendo canções e recolhendo cobiçadas moedas de euro. Eu vaguei por Lisboa com Daniela e ela olhou pra mim e disse que sim. E sim. Eu agora também vou bem. Obrigado.

(Texto escrito em Lisboa, em agosto de 2013, ao final da primeira semana naquela cidade)

Escrito por Edwar às 19h11
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20/07/2014


Pra gente ser feliz é preciso ter coragem e fazer festa na esperança!


Entorno um cálice de Ferreira Dona Antonia e, enquanto aguardo o gentil chef Ernesto me servir mais uma guloseima do Spago, apalpo a barriga, já saliente, e me pergunto se devo tomar um chopp. A resposta vem tão rápido que se confunde com o pedido: – “Se faz favor” - gaguejo no português de Portugal - “uma imperial!”. Estou em Lisboa. Sinto frio. Mas faz 18 graus e eu também sinto algum pudor em mostrar que estou com frio. Alguns estão em mangas de camisa. O chopp (a imperial) chega. Um televisor, à minha frente, reprisa um jogo da Liga Europa pela qual não tenho interesse a ponto de ver uma reprise. Lembro que na minha mochila, em algum dos bolsos, posso encontrar fones de ouvido desses que são distribuídos naqueles ônibus que fazem tour pela cidade transportando malandros otários. Putz! São vermelhos. Mas e daí? A garçonete me sorri e eu – puta velha – traduzo de pronto o sorriso: “paciência. Vai demorar um pouquinho porque tem muita gente hoje”. Eu lhe sorrio de volta dizendo que “tudo bem”, mas fico em dúvida sobre se ela sabe falar sorrirrez. Confiro a hora: 15:07. Olho pro meu celular desejando que ele tivesse orelhas pra ouvir eu lhe dizendo o quanto o amo. Estou no wi-fi do Spago. A calefação dançou, pois esses malucos acham que já está calor. Puta que pariu! Matar o cão. Com meus ridículos fones de ouvido já enfiados nas orelhas, acesso o sítio www.ouvirmusica.com.br. Peço outro chopp. Quando a garçonete se aproxima eu lhe segredo – com a intimidade que só tem quem, como eu, almoça aqui diariamente – que estou sem fome e que acho até melhor o almoço demorar. Ela apenas sorri e eu concluo que ela sabe sim falar sorrirrez. Começo a ouvir “Eu vou tirar você desse lugar – tributo a Odair José”. E aí pronto. Concluo que, tendo em vista que na segunda feira bem cedo eu vou a Évora apresentar trabalho e que tinha combinado comigo mesmo que o final de semana seria usado para limpar o apartamento e deixar tudo em ordem, é melhor calar Los Hermanos e seus companheiros. – “Porra, até parece que esses caras ouviram Odair lá no abrigo de PIO IX”. Dispenso os fones de ouvido. O terceiro chopp chega junto com o almoço. Como é mesmo o nome? O chef Ernesto me disse. Trata-se de um peixe ao molho com umas conchinhas que parecem ser de ostras. Mas o chef – quase dando uma dura e no bom português de Portugal – me corrigiu dizendo não ter nada a ver com ostra. É outra coisa. Qual é mesmo o nome? Lembro não. Deixa pra lá. Devoro o prato lentamente, me perguntando qual seria a utilidade das conchinhas. Que o chef não ouça meus pensamentos. Ao terminar, ainda penso num quarto chopp, mas desisto ao verificar que ninguém, além de mim, está tomando cerveja. Todos bebem vinho. Uma taça, apenas, de um vinho “da casa” que o chef diz ser “muito bom” mas que eu, na única vez que tomei, achei horrível. O meu terceiro chopp – graças a Deus! – ainda está pela metade. Bolas! – penso – vou ouvir mais um pouco do tributo a Odair no caminho de casa. Peço e pago a conta. Nos 400 metros que separam o Spago do meu apartamento caminho com a lembrança do sorriso inconfundível e impagável do Gabriel. Sinto a mão de Luana sobre a minha barriga – “Eita, pai! Tá ficando barrigudo!” – e vejo Daniela me sorrir um sorriso cheio de promessa e cumplicidade. Um cara cruza comigo conduzindo um cachorro enorme. Já estou, novamente, com meus ridículos fones vermelhos de ouvido. Tudo fica em slow motion enquanto ouço Odair – agora ele mesmo – cantar que “pra gente ser feliz é preciso ter coragem e fazer festa na esperança”. Eu tenho! Eu faço!

Escrito por Edwar às 19h33
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21/06/2011


Meu coração já não bate. Nem apanha.

(caminhando e cantando em Viracopos)

 

 

Eu não me sentia um americano em Paris. Acho que era algo assim tal como fazer desenhos na chuva com giz. Eu me sentia um cubano em Nova York. Eu achava que faria tudo que não sei porque tamanho tinha que ter a ver com poesia. Eu sei que você não entende de nada e por certo vai achar que minhas lágrimas são de cortar cebola. Não são. É porque eu sou ruim demais nesse negócio de contar histórias e, de todo modo, eu sempre volto ao meio daquela praça no meio daquela cidade que fica no meio da minha vida. Eu sei que você vai me dizer que a saudade é uma doença fóssil e eu te direi pra vir comigo, nestas curvas do mundo, pra eu lhe mostrar o caminho que traz do Mercador até aqui.  Se você pretende saber quem eu sou, já sabe: vem que eu faço um drops de hortelã daquela bala que eu te dei. Eu já te disse que sou dengoso e manhoso e, portanto, você já quase até me conhece. Mas, enfim, deixa eu te contar essa história porque eu sou muito bom nesse negócio de achar que sei contar, ainda que você me diga que isso é contraditório. Foi assim: aí meu pai me disse "eu ainda sou tão filho!". E então eu descobri que a vida, às vezes, é como uma touca de bebê sem cabeça. Eu gosto de trocadilhos tanto quanto de injeções. Pois foi assim: botas. Dentro das botas, dois pés cujas unhas eu tentava adivinhar. Sobre os pés, pernas, coxas, bunda e um jeito assim meio mamulengo de caminhar. Puxa, como é bom poder tocar um instrumento. Há quanto tempo eu conheço você? Lembro que chovia e havia uma casinha em cujo quintal porcos - sim, porcos! - dormitavam sob a chuva. Eu tomei seu corpo no meu e ainda hoje posso sentir seus peitos entumecidos. Mas, enfim, botas, pernas, coxas e bunda bamboleando em minha frente torna tudo mais difícil tanto quanto saboroso. Por favor, não ecloda, em mim, o elevador metafísico que entumece, em mim, o meu instrumento. Você vai me dar ou o quê? Isso me aflige e atrapalha e acaba que eu não toco direito este meu pobre instrumento. Ainda mais agora, que acabo de descobrir esse teclado virtual. Em fim, eu te conto: são léguas. Exatamente doze quilômetros. Tudo aqui quer me revelar, mas, como disse, você não entende de nada. De qualquer modo, tem tantos sentimentos que deve ter algum que sirva. Quando eu estiver triste, simplesmente me afague. Porque meu coração já não bate. Nem apanha. Ah! E antes que você saia por aí dizendo que eu não soube dar amor, eu lhe digo: virar copos é mau negócio quando você está a milhares de quilômetros de casa. Viracopos é uma rodoviária complexada. Tanto quanto os aeroportos são, de modo geral, não-lugares, buracos negros, páginas brancas sobre as quais eu finjo me desenhar. E trate de levar tudo a sério, pois noventa por cento do que digo é invenção. Só a décima parte é mentira (MB). Portanto, arranque logo essa dor do meu peito e me leve de volta pra casa.

Escrito por Edwar às 16h06
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17/05/2011


 

O ovo apunhalado.

 

Eu lia Caio Fernando Abreu ao mesmo tempo em que ouvia o ronco suspeito da turbina. Meus olhos, entre o livro e a asa, me lembravam medo. Pensei no gigantismo das coisas e na minha própria inutilidade diante dela. Medo. Medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão. Mas de repente, assim como quando a gente tropeça, me ocorreu que medo é matéria de expressão. E – só me tocaria depois, quando medo já não havia – o medo cedeu lugar a um mergulho em mim mesmo. É fascinante viajar dentro de si. Com tanta fúria que tudo o mais se apague. E eu lembrei que sentia medo de meu pai. Quase senti pena. Mentira: eu senti. Mas não sinta. Passou e já faz muito tempo e eu sempre achando que não dava mais tempo. Quando passou, sabe? E nós viajamos e fazia tanto frio que a fotografia flagrou uma fumacinha que saia de nossa boca e narina. Não! No singular mesmo porque naquele tempo o medo já era tão distante que já não nos impunha plurais. E quando pensei nisso e chamei por ele, o cara do meu lado assustou-se e eu adivinhei seu susto. Então, quase abruptamente, fui devolvido às sensações da asa e do livro. Medo. E fiquei assim até que o avião roncou um pouso em Viracopos. Saltei rápido. Enquanto caminhava pelo asfalto molhado, em direção ao aeroporto, bendisse a chuva, amei o sol, senti com um prazer quase carnal a presença das pessoas num vai-e-vem frenético à minha volta. Então, na ausência do medo, passei a pensar nas contorções de um ovo apunhalado.

 

Escrito por Edwar às 22h28
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23/08/2010


A primeira micarina a gente nunca esquece!

 

a primeira micarina a gente nunca esquece. o mar de teresina ficava no céu da sua boca, menina. enquanto a potycabana nos espionava, esperando surpreender a hora em que minha mão boba, afoita e sedenta se aventuraria em um surf por sua bunda, ou buscaria com alguma timidez o calor de seus peitos, eu experimentava a sensação rústica da areia em meus pés. tudo se misturava. não apenas o rústico em meus pés e o tesão afoito em minhas mãos, mas um curto-circuito, elevador metafísico que ia da cabeça aos pés, fazendo rumba na cintura e escala nas mãos, tinha que conviver com a recorrente lembrança de meu fusquinha vermelho largado a alguns quarteirões, faceiramente fingindo que trancava as portas. não travava. apenas a do meu lado. aquela do seu lado tinha o trinco quebrado. você ainda lembra? você ainda lombra? Você ainda tem lado? lança, menina, lança todo esse perfume! pipoqueiros e bloqueiros, quando não haviam bloGueiros, também estavam incrivelmente misturados. ali, onde se ergueria a presença arrogante e pós-moderna do teresina shoping, nós experimentamos o timbau. o escambau. fizemos barreirinha pra você mijar na areia. nada de banheiros qímicos. ainda que houvesse chevetes, ivetes não haviam. outros acordes. as canções que eu ouvi por ti. a primeira micarina a gente nunca esquece. latinhas de cerveja se acumulavam em meu estômago e iam dilatando o meu cérebro. a pedra é mole mas a vida é dura. amanhã, logo cedo, eu serei seu professor. só quero me lembrar de quando a gente andava nas estrelas. a gente gostava particularmente daquelas que acobertavam o truck’s, na João vinte e três. espécie de bifurcação onde eu conciliava meu estômago faminto e meu cérebro embaçado de cerveja. ainda hoje sinto o cheiro. e enxergo o momento em que, dali a pouco, cavalgaremos um ao outro. vamos namorar, beijar na boca. a primeira micarina a gente nunca esquece.

Escrito por Edwar às 21h04
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23/03/2009


Este homem nu sou eu

 

rebobinei. rebobeei. voltei à primeira pessoa. eu só quero saber do que pode estar perto. sigo pensando nos liames que ligam o mim ao ti. eu a você. a possibilidade ao acontecer. eu só quero estar certo de que você vai estar perto. esse homem nu, grotescamente ridículo, sou eu. esse jeito manso, dengoso e manhoso, é seu. em meus olhos, o brilho translúcido de fragmentos de vida expostos ao sol do equador. pedaços de vidas gestadas ao sul do coarador onde eu espiava as calçolas das meninas de meu tempo. restos de porres, ressacas medonhas. esse homem nu, creia, sou eu. minhas vestes eu perdi pelo caminho. sinto com prazer este ventinho frio que açoita meu corpo nu. você pode, por favor, desligar o ar condicionado? você pode, por favor, virar um pouco de lado? você pode, por deus, me passar estes morangos que mofam ao seu lado? eu estou pensando numa curva que tem lá no pernambuco quando eu vou voando pra catende. você não entende de nada. quer parar? quer fazer xixi? quer descer? mas não era você quem queria saber quem eu sou? eu não tenho carro, nem curvas, exceto esta de que te falo. e catende. lá sou amigo do rei. tenho a mulher que quero? tá bom. a grama eu escolherei.

 

 

 

Escrito por Edwar às 23h05
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10/02/2008


Eu quero re-bobinar

 

o filme acabou, mas eu segui acompanhando o letreiro com atenção. não importavam, tanto, os créditos e toda aquela chatice que segue embalada por um sobe e desce infindável de nomes que parecem ter sido colocados ali pra ninguém prestar atenção. na verdade, nem mesmo na perda de tempo eu pensei naquele instante. eu me esforçava pra ver o outro lado, assim como quem espia pelo retrovisor, em uma curva, na luta inglória por continuar enxergando o que, como se sabe com toda certeza, os olhos sempre perdem de vista. encontrei, naquele letreiro, um pretexto pra pensar o além do fim. foi um lampejo. me ocorreu ali, naquela hora, que só sei ser plug-in. e não me refiro, nem pense nisso, aos bits que nos conectam agora, mas aos plugs invisíveis, sensíveis, através dos quais nos conectamos uns aos outros. ontem eu ouvi fredie e fiquei morrendo de saudade de mim. era uma tarde quente, aquela, quando queen elizabeth olhou e piscou pra mim. in memoriam pacem. então, com o letreiro, eu pensei: puxa, no melodia tem uma mina que gosta de mim. hoje eu ouvi eliane e fiquei morrendo de saudade do tempo que correu velozmente nos últimos cinco anos. desafinado, o melodia não é mais. eu adorava uma camisa vermelha, cafona, que me matava de calor. então me deu uma vontade danada de pegar o controle remoto e rebobinar. voltar a ser bobo. um poeta sem eira na beira de um colapso nervoso. o letreiro seguia e eu procurando engatar uma marcha ré. boa viagem. eu lembro, agora, da moça bonita que jamais pude ver na praia de boa viagem, mas cujo hálito eu sei ter o gosto do sol. amanhã eu ouvirei alceu valença e, com todo cuidado, vou escolher a saudade que irei sentir. sim, porque, por hoje, os quatro cantos me parecem vazios e silenciosos. são o marco zero. zaping. vídeo of my life: chuvisco...

Escrito por Edwar às 22h50
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22/01/2008


Salve o lindo pendão dos seus olhos

 

deslizo rápido entre as faixas. no rádio ou na tv. sou o billy the kid do controle remoto. sintonizo os meus dias no dial da tua existência. pena eu não saber como te contar, pois eu já sei o que os meus olhos vão querer. eu sei que ali, na grama do aterro sob o céu, é possível observar as estrelas e adivinhar, nelas, por elas, depois delas, os versos de amor com que te cerco. teresina tem uma avenida nova que engole a ponte wall ferraz. teresina tem uma avenida velha que me leva de volta pro mundo fantástico e misterioso onde tudo começa e se renova, indefinidamente. a estrada tem solavancos, eu sei. mas não me importo. eles são parte do mistério. teresina tem um céu lindo, mas é recortado por coriscos nervosos anunciando que a noite não tem luar. lá onde meu pensamento passa como um raio, eu corro ao encontro daquela brisa que me acertou levíssima à beira-mar, na praia do futuro, e descubro, com saudade, que o mar de teresina fica no céu da boca da menina. faz um rock urgente, por favor. eu quero andar por ruas e ruas. eu quero sentir a levíssima embriaguez de um absinto proibido lá em porto de galinhas. eu quero te mostrar minha nudez quase ridícula em tambaba. em campina grande, vou te ensinar a encontrar o melhor lugar no big mix. fui até natal, salvador e paraíba, mas jamais estive em bacabal. mas não faz mal, pois com você o céu é azul, quase transparente. essa noite eu sonhei que você tava no outro quarto e eu ia lá e a gente se punha a perseguir pipas por ruelas soturnas antes que as bombas explodissem no afeganistão. a gente se tocou e, ao toque, o amor se fez. fizemos amor. eu te juro: o beijo não vem da boca. eu te garanto: o mundo não é chato. eu te ensino: esse cheiro tão bom que você sente, meu amor, vem dos morangos mofados que deixei sobre a mesa. eu te conto: de tanto andar por aí, eu agora me resolvo e vou buscar você, pois minha namorada, muito amada, não entende quase nada, e não vem de madrugada procurar por onde estou. quando eu chego em casa, nada me consola. e como esse papo já ta qualquer coisa, fica combinado assim: salve o lindo pendão dos seus olhos. soy loco por ti.

 

Escrito por Edwar às 22h22
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21/12/2007


Lucy in the sky with diamonds.

 

eu não sabia se ela sabia do que eu queria que ela soubesse, mas eu pensava puxa, eu estou tão a fim que, Deus, fulano Deus das estrelas que alumiam a noite de cidadezinhas como a minha, de repente ela pode até saber porque, de repente, eu posso estar vivendo minhas aventuras na cidade de thor. então, quando ela apareceu no salão, flanando altiva sobre tudo e sobre todos com sua beleza juvenil, eu pensei puxa, eu adoraria remover lentamente esse vestido. tão lentamente que não importaria tanto o removido, mas a remoção, digo, remoçado. foram vinte ou trinta anos e eu pensei em olhar de soslaio e dizer pra ela que ela, a bela, era pura alquimia. então fui dormir e sonhei com uma menina linda que flanava sobre tudo e sobre todos com seu belo vestido juvenil. as vezes, quando penso perco o senso e isso é incrível. é. juro. eu tava ali e, por mais insensato que isso fosse, eu apenas tava. pink floyd berrava algo mas eu não ouvia. meus afetos estavam mais interessados, talvez, em cacaso ou alice ruiz, cúmplices possíveis das metáforas que, depois, eu usaria para compor um quadro em que há estrelas no céu, afeto no chão, um vento soprando lá do alto da rua e, de vez em quando, hipócritas rondando ao redor. era no outro dia de dia, devo dizer a você, quando eu ainda pensava no vestido que vestia a leveza daquela beleza juvenil. não se perca de mim. era já noite. de noite. a madrugada se esgueirava em direção à manhã quando eu temi o ridículo de declamar versinhos sorridentes. mas, como te disse, eu tava ali. e já não me importava com coisas como sensatez. o vestido, que na noite anterior descera aquela rua sacudido por um vento ateu, já não era mais. quando suas mãos tocaram em meu rosto e eu apoiei minha cabeça, remoçada, em seu ombro, quase chorei. o vento que soprava do alto da rua nos beijou lenta e sofregamente. eu pedi seus olhos e, quando os tive, fiquei boiando neles. eram fortes, lindos e profundos. minha boca, remoçada, quase tocou a boca dela. centímetros, talvez milímetros, separavam agora meu querer daquela boca juvenil na qual eu mergulharia. respiramos no mesmo ritmo. lembro que pensei em quão incrível era conseguir algo assim. as estrelas se amontoaram sobre aquela ruazinha querendo nos ver. por um momento, a madrugada parou sua caminhada frenética rumo à manhã e ficou absorta nos olhando. um gato, branco, se esgueirou por sob o carro de cujos alto-falantes pink floyd nos espionava. um saco, que jazia triste e velho sobre a calçada do outro lado, quase ganhou vida. suas mãos em meu rosto. minha cabeça em seu ombro. mais uma vez pedi seus olhos. quando os tive, saquei que um instante mágico se fizera. ficamos suspensos e, enquanto flanávamos sobre as estrelas, quase tive pena dos velhos alquimistas que jamais tocaram a pedra filosofal. sua respiração tocou a minha e eu a abracei suave e carinhosamente. quando me deu sua boca o fez com a elegância de uma multidão de princesas européias. um ventinho frio, que descia do alto da rua, nos envolveu e agarrou-se a nós, como se quisesse fazer parte daquela alquimia. então nos beijamos. enquanto minha língua brincava em seu céu da boca, eu pensei: eis aqui revelado, mais uma vez, o lado claro, cristalino e cintilante da lua.

Escrito por Edwar às 23h06
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25/09/2007


a magrela

 

ao geraldo castelo.

 

era uma magrela desajeitada. minha vó diria que ela era “desaconsoada”. era mesmo desconsolada, desbotada, démodé. mas eu a adorava. não que tivesse sido com ela a primeira vez, mas com ela o zunido do vento em meus ouvidos fora diferente. também pudera: ela compunha o quadro, quase surreal, dentro do qual eu vira, pela primeira vez, a luz neon pintando a rua noturna de uma cidadezinha que eu então enxergava grande. eu sei que já te contei isso e que você agora, exatamente no momento em que o seu olho cai sobre o último “n” com o qual grafei neon, proclama que eu sou repetitivo e chato e que não quer mais seguir comigo. então eu olho em volta e, só me restando o teclado, além de você – que me enxerga fosco por detrás da imensidão de modens, placas, bits e fios que nos separam e conectam –, me ocorre redizer que eu sou amável e terno, medroso, manhoso e dengoso. sou lírico e trágico como vicente celestino. e acho que tinha mesmo algo de ébrio em meu encontro com a magrela. não me lembro quando a vi primeiro. não sei onde, dentro daquele quadro de neon, eu a segurei, montei nela e cavalguei sofregamente com o vento açoitando minhas orelhas. você deve dizer que eu minto porque, afinal, como dizer que não lembro se sinto, ainda, a sensação do vento em minhas orelhas? tá certo. se sinto minto então são mentiras as coisas que te digo agora. mas foi. creia. ao longe operários recolhiam suas ferramentas depois de um árduo dia de trabalho numa pracinha em reforma. a noite caía lenta e preguiçosamente. alguns postes, altivos, eclodiam suas luzes iluminando a rua que mergulhava na semi-penumbra. eu imaginava minha mãe fazendo algo que eu jantaria daqui a pouco. a pracinha agora, já sem o vai-e-vem de operários ávidos por suas casas, mulheres, meninos e novelas, parecia uma árvore de natal. baldes de plástico, de diferentes cores, balançavam em um cordel com luzes acesas em seu interior sinalizando valas abertas durante o dia. lembro que achei genial a idéia da demarcação com baldes. lembro agora que não me lembro se vi isso em outro lugar, em outras ocasiões. lembro que no interior do bar (seria uma mercearia?), em cuja calçada eu inundava meus olhos com as luzes dos postes e dos baldes pendurados, podia adivinhar meu irmão bebericando cervejas com seus amigos. a magrela, encostada à parede em sua impensável beleza desajeitada, provavelmente me fitava. mas eu, certamente, não pensava nela. estava muito ocupado enchendo minhas retinas com as luzes daquela quase noite. talvez, quem sabe, eu adivinhasse que precisaria dessas luzes-metáforas para contar, agora, este conto que conto a você. então o meu irmão emergiu do interior do bar. eu ouvia suas passadas e tinha certeza que era o seu caminhar. eu sempre fui bom nesse negócio de sacar os caminhares. me voltei para ele com restos quase ofuscantes de luz em meus olhos. ele não deu qualquer pista de que compreendia/desconfiava/sacava minha suruba ótica. sorriu. sua barba e hálito chegaram tão perto de mim, quando ele me falou, que lembro ter desejado prolongar maximamente o momento. ele me disse: ­– é macho mermo?! eu assenti, sorrindo. ele então avançou a senha mágica: se você tiver coragem de ir sozinho, pedalando, pra casa, a partir de hoje essa magrela é sua. eu não lembro o que respondi. na seqüência, minha lembrança alcança apenas um moleque pedalando velozmente pela avenida brasil, em maringá. enquanto a zona dois ia ficando para trás, e o vento assoprava segredos em meus ouvidos, eu pedalava minha primeira bicilceta.

Escrito por Edwar às 21h29
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05/07/2007


Eu sou o superbacana!

 

é assim: tudo se passa como se eu tivesse fumado um baseado e saído à toa, cachorro urubu, pelos confins de um céu cheio de mistérios. e então, puf!, acordo sem sobressalto em algo muito bom. tem sempre uma mulher, linda, areia demais pro meu caminhãozinho, que me diz algo assim singelo enquanto me olha com um olhar que é síntese de marilyn monroe – antes de agripino de paula, ressalte-se – com paula toller. a primeira vez foi nos idos de mil novecentos e oitenta e alguma coisa: ela me beijava e pedia desculpas por algo que, dizia ela, acontecera na noite anterior. juro: até hoje não sei do que se tratava. mesquita diz que é mentira, que isso jamais aconteceu. viagem minha. mas aconteceu sim. e o incrível não é o acontecimento, em si, mas o quase dejavu que ele é. eu ainda sinto, tantos anos depois, aquela mão terna sobre meu rosto, a língua quente em minha boca e as palavras chorosas caindo suavemente sobre meus ouvidos. fiz cena, devo ter imitado aqueles personagens cafajestes de filmes tipo B coçando o saco. mas não é isso que importa. eu quebro cabeça é pra lembrar do antes. onde/como eu estava quando aquilo tudo se configurava? tudo que sei é que ela veio ao meu encontro, interrompeu meus lentos passos ressacados no meio da praça, sob um sol douradamente lindo e juvenil, ignorou os olhares atônitos que se atiravam sobre nós, deslizou sua mão em meu rosto, disse algo choroso em meu ouvido e enfiou fortemente a sua língua em minha boca. moraes moreira explodiu sobre os meus ouvidos enquanto ela se afastava sobre uma bunda que rebolava promessas mil. e eu saquei: sou o superbacana.

Escrito por Edwar às 15h10
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17/05/2007


Além da barragem tem um pé de umbuzeiro.

 

rua do prado, Deus, circuladô de fulô por onde os circuladores circulam amor e dor. ái! como dói e ao mesmo tempo afaga a lembrança que me atravessa agora. eu gostaria de contar mas não tenho talento pra lembrar. como é mesmo o nome de minhas amigas, irmãs quase siamesas que escondem a mim e ao meu amor adolescente? ela me beijava e eu sentia sua língua, morna, resvalar entre os meus dentes. uma descarga elétrica, impactante, bolinava entre minhas pernas e fazia crescer, por sob um calção elite branco, com listras rubro negras dos lados, o meu sexo inocente, indecente, rigidamente carente. eu sabia de cor o formato do sexo dela, adivinhava seu cheiro, mas não ousava tocar. já era muito ter que ficar experimentando a sua língua bolinando a minha língua e ainda me concentrar pra negociar com meu sexo jovem e afoito um retardamento de seu êxtase. em casa eu te dou tudo, eu dizia, não goze agora porque eu vou morrer de vergonha. era sempre de manhã, porque as tardes eram pardas com listras verticais azuis e soturnos kichutes pretos nos uniformes colegiais. incrivelmente, à noite, quando todos os gatos são pardos, era mais difícil esconder-se. eu sou amável e terno, medroso, manhoso e dengoso. sou lírico como caetano. então, como eu dizia, era de dia. era sempre dia, ainda que fossem noites com longas cartadas de suéca. meu amor adolescente, inconsequente, urgente, escorria pelos paralelepípedos da rua do prado. os panos verdes das sinucas. o gosto adocicado de rum com coca-cola. um vento quase frio soprando lateralmente o meu rosto enquanto eu me espreguiço sobre uma cadeira de macarrão com a armadura de metal enferrujada. o doce claro, sem nenhuma dúvida, do tijolo de leite de carlito. a fumaça medonha de um holywood fodendo o meu pulmão. trepidant’s na palhoça. cachaça no baleado. baseado certeiro. o meu amor adolescente, inconsequente e urgente escorrendo pelos grotões de minha alma. além da barragem tem um pé de umbuzeiro. Confira.

Escrito por Edwar às 14h53
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28/04/2007


 

A Dilson Tavares, seu amor e sua irmã, por sentirem comigo.

A Daniela, por balançar o chão de minha praça.

A Caetano Veloso, por ser e por cê.

 

Havia uma imensidão de cotovelos que se acotovelavam e milhares de olhos que miravam outros olhos e pele e carne e osso e nada químico. É incrível. Em muitos anos, era a primeira vez, numa noitada, em que eu era apenas pele, osso, carne, alguma coisa prestes a entrar em ebulição em minha alma e nem um hi-fi. Nada. Eu olhava em volta, ouvia uma sinfonia por sobre o burburinho das vozes e lembrava que a brasilidade é uma doença fácil, fértil, fóssil, fútil. Diferentemente dos americanos do norte. A iluminação, o cenário, a pose, eu, meus amigos e meu amor caminhando por dentro da noite. Repassei rapidamente cada uma de minhas frases prediletas entre suas frases diletas. Preciso dizer que te amo. Então lembrei, subitamente, de seus primeiros pasquins em londres, quando o sol, a só, depe de si, digo, despede-se, desce pé ante pé e emerge diante do urro da multidão. Ilumina a noite de Teresina enquanto eu penso em quão maravilhoso é um acontecimento como aquele, em que se pode reunir milhares de ruídos em um uníssono. Quase como Miles Davis, mas certamente melhor. E então ouvi, mais uma vez e silenciosamente, que seu corpo é a quarta dimensão de seu canto. Quais seriam as outras três? Balança o chão da praça, meu amor, cante cajuína quando você me ouvir cantar. Dois e dois são cinco? Essa ciranda, quem me ensinou? Agora sim: lá no oriente tem gente com olhar de lança na dança do meu amor. Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína! Cajuína!

 

Não! Nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui. Por uma razão simples: quando tu me deste a rosa pequenina vi que és um homem lindo.

Escrito por Edwar às 15h58
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15/04/2007


É preciso dizer de novo: Não apresse o rio, ele corre sozinho.


Traga-me um copo d’água, tenho sede. Tenho porque tenho esta sede que não cessa. Você sabe de que sede estou falando? Isso! Apenas sede. E é incrível como esta sede, de repente, me coloca em um tubo de tempo e eu ouço Gil cantando e imagino as grades da prisão que lhe prendiam e inspiravam. Volto a mim. Calculo lentamente o espaço que me separa da geladeira. Também lentamente roço a língua no céu da boca e fico pensando em Marcel Proust. Prolongo mais um pouco a minha sede para utilizá-la como instrumento de busca do tempo perdido. Minha língua. Minha boca. Sorrio sorrateiramente agora (não o sorriso entredentes de Torquato, mas um sorriso de repente) quando imagino um turbilhão de sensualidade. Tudo por causa da minha sede. Então concluo que tudo está dialeticamente recoberto por dois lados antagônicos. Tudo é bom e ruim, a depender do uso que damos às coisas. Mais uma vez minha língua, meu céu da boca, minha sede. Vou saborear a água que beberei com sofreguidão, mas sem pressa. E estarei ouvindo um hino da gestalterapia – “não apresse o rio, ele corre sozinho”

Escrito por Edwar às 10h20
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01/04/2007


O que é um autor?

 

Vem de dentro de mim, assim como um rio que jorra em direção ao mar, o questionamento que faço agora: onde a fronteira entre autor e leitor? Onde a fronteira entre eu e você? São pedaços de mim que eu te ofereço, assim como quem rasga o último chiclete e o aponta em direção a ti. Mas não se iluda: não te dou apenas a mim. Não consigo ser só eu. Do mesmo modo: você não coincide consigo mesmo. E olhe que não se trata de metamorfose ambulante ou coisa do tipo. É uso. O que expresso revela a deformação de discursos que me antecederam e aos quais não é possível usar sem os desalojar. É como o vinco da calça bem engomada que vai desaparecendo à medida que a uso. Olhei detidamente as metáforas de Jessier Quirino; ouvi atentamente os textos de Foucault; disse calmamente os impropérios de um taxista insano; proferi solenemente a oração que aprendi para a primeira comunhão; atarantado pelos automóveis, meus olhos foram varados pelo neon, enquanto Ismália, ensandecida, pôs-se na torre a sonhar; três da madrugada, tudo e nada. Você me chama. E eu vou. Por que não? Lembro que quando saí de casa trouxe a viagem da volta gravada na minha mão. Todos os fatos que explico, portanto, são atos de criação. Ops! De deformação. Punição. Eis: os textos só passaram a ter autores na medida em que os discursos se tornaram transgressores e, então, os censores precisaram contê-los na origem. Então é isso aí: pedaços de mim, que finjo ser eu, pra você, que pensa ser um idêntico a si mesmo. Curiosamente, quem viveu todos os dias de paupéria também comprou Don Quijote de la mancha. Entendeu?

Escrito por Edwar às 10h08
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