Meu coração já não bate. Nem apanha.
(caminhando e cantando em Viracopos)
Eu não me sentia um americano em Paris. Acho que era algo assim tal como fazer desenhos na chuva com giz. Eu me sentia um cubano em Nova York. Eu achava que faria tudo que não sei porque tamanho tinha que ter a ver com poesia. Eu sei que você não entende de nada e por certo vai achar que minhas lágrimas são de cortar cebola. Não são. É porque eu sou ruim demais nesse negócio de contar histórias e, de todo modo, eu sempre volto ao meio daquela praça no meio daquela cidade que fica no meio da minha vida. Eu sei que você vai me dizer que a saudade é uma doença fóssil e eu te direi pra vir comigo, nestas curvas do mundo, pra eu lhe mostrar o caminho que traz do Mercador até aqui. Se você pretende saber quem eu sou, já sabe: vem que eu faço um drops de hortelã daquela bala que eu te dei. Eu já te disse que sou dengoso e manhoso e, portanto, você já quase até me conhece. Mas, enfim, deixa eu te contar essa história porque eu sou muito bom nesse negócio de achar que sei contar, ainda que você me diga que isso é contraditório. Foi assim: aí meu pai me disse "eu ainda sou tão filho!". E então eu descobri que a vida, às vezes, é como uma touca de bebê sem cabeça. Eu gosto de trocadilhos tanto quanto de injeções. Pois foi assim: botas. Dentro das botas, dois pés cujas unhas eu tentava adivinhar. Sobre os pés, pernas, coxas, bunda e um jeito assim meio mamulengo de caminhar. Puxa, como é bom poder tocar um instrumento. Há quanto tempo eu conheço você? Lembro que chovia e havia uma casinha em cujo quintal porcos - sim, porcos! - dormitavam sob a chuva. Eu tomei seu corpo no meu e ainda hoje posso sentir seus peitos entumecidos. Mas, enfim, botas, pernas, coxas e bunda bamboleando em minha frente torna tudo mais difícil tanto quanto saboroso. Por favor, não ecloda, em mim, o elevador metafísico que entumece, em mim, o meu instrumento. Você vai me dar ou o quê? Isso me aflige e atrapalha e acaba que eu não toco direito este meu pobre instrumento. Ainda mais agora, que acabo de descobrir esse teclado virtual. Em fim, eu te conto: são léguas. Exatamente doze quilômetros. Tudo aqui quer me revelar, mas, como disse, você não entende de nada. De qualquer modo, tem tantos sentimentos que deve ter algum que sirva. Quando eu estiver triste, simplesmente me afague. Porque meu coração já não bate. Nem apanha. Ah! E antes que você saia por aí dizendo que eu não soube dar amor, eu lhe digo: virar copos é mau negócio quando você está a milhares de quilômetros de casa. Viracopos é uma rodoviária complexada. Tanto quanto os aeroportos são, de modo geral, não-lugares, buracos negros, páginas brancas sobre as quais eu finjo me desenhar. E trate de levar tudo a sério, pois noventa por cento do que digo é invenção. Só a décima parte é mentira (MB). Portanto, arranque logo essa dor do meu peito e me leve de volta pra casa.



Leia este blog no seu celular