Lucy in the sky with diamonds.
eu não sabia se ela sabia do que eu queria que ela soubesse, mas eu pensava puxa, eu estou tão a fim que, Deus, fulano Deus das estrelas que alumiam a noite de cidadezinhas como a minha, de repente ela pode até saber porque, de repente, eu posso estar vivendo minhas aventuras na cidade de thor. então, quando ela apareceu no salão, flanando altiva sobre tudo e sobre todos com sua beleza juvenil, eu pensei puxa, eu adoraria remover lentamente esse vestido. tão lentamente que não importaria tanto o removido, mas a remoção, digo, remoçado. foram vinte ou trinta anos e eu pensei em olhar de soslaio e dizer pra ela que ela, a bela, era pura alquimia. então fui dormir e sonhei com uma menina linda que flanava sobre tudo e sobre todos com seu belo vestido juvenil. as vezes, quando penso perco o senso e isso é incrível. é. juro. eu tava ali e, por mais insensato que isso fosse, eu apenas tava. pink floyd berrava algo mas eu não ouvia. meus afetos estavam mais interessados, talvez, em cacaso ou alice ruiz, cúmplices possíveis das metáforas que, depois, eu usaria para compor um quadro em que há estrelas no céu, afeto no chão, um vento soprando lá do alto da rua e, de vez em quando, hipócritas rondando ao redor. era no outro dia de dia, devo dizer a você, quando eu ainda pensava no vestido que vestia a leveza daquela beleza juvenil. não se perca de mim. era já noite. de noite. a madrugada se esgueirava em direção à manhã quando eu temi o ridículo de declamar versinhos sorridentes. mas, como te disse, eu tava ali. e já não me importava com coisas como sensatez. o vestido, que na noite anterior descera aquela rua sacudido por um vento ateu, já não era mais. quando suas mãos tocaram em meu rosto e eu apoiei minha cabeça, remoçada, em seu ombro, quase chorei. o vento que soprava do alto da rua nos beijou lenta e sofregamente. eu pedi seus olhos e, quando os tive, fiquei boiando neles. eram fortes, lindos e profundos. minha boca, remoçada, quase tocou a boca dela. centímetros, talvez milímetros, separavam agora meu querer daquela boca juvenil na qual eu mergulharia. respiramos no mesmo ritmo. lembro que pensei em quão incrível era conseguir algo assim. as estrelas se amontoaram sobre aquela ruazinha querendo nos ver. por um momento, a madrugada parou sua caminhada frenética rumo à manhã e ficou absorta nos olhando. um gato, branco, se esgueirou por sob o carro de cujos alto-falantes pink floyd nos espionava. um saco, que jazia triste e velho sobre a calçada do outro lado, quase ganhou vida. suas mãos em meu rosto. minha cabeça em seu ombro. mais uma vez pedi seus olhos. quando os tive, saquei que um instante mágico se fizera. ficamos suspensos e, enquanto flanávamos sobre as estrelas, quase tive pena dos velhos alquimistas que jamais tocaram a pedra filosofal. sua respiração tocou a minha e eu a abracei suave e carinhosamente. quando me deu sua boca o fez com a elegância de uma multidão de princesas européias. um ventinho frio, que descia do alto da rua, nos envolveu e agarrou-se a nós, como se quisesse fazer parte daquela alquimia. então nos beijamos. enquanto minha língua brincava em seu céu da boca, eu pensei: eis aqui revelado, mais uma vez, o lado claro, cristalino e cintilante da lua.