Pensamento e Arte


04/03/2005


Ressonâncias do beijo

Há muitos anos, quando li "O beijo não vem da boca", de Inácio de Loyola Brandão, senti um enorme solavanco. Sabia que aquele texto tinha algo assim como um carisma misterioso. No último dia 27, fazendo um exercício proustiano de busca do tempo perdido, anotei as sensações que a leitura me despertou e que ainda hoje sinto. Como a confirmar aquele carisma misterioso, o texto foi o mais comentado no blog. Hoje, com a intenção de me deixar atravessar pelas falas e as potencializar no sentido de que elas resvalem no máximo de pessoas, publico alguns dos comentários que foram feitos ao texto "de onde vem o beijo?", ainda disponível neste blog:

"Não sei de onde vem o beijo. Talvez do céu, caindo sobre nós como um divino orvalho. E as palavras (que também não vêm da boca) talvez sejam suas vizinhas. Beijos e palavras são especiais e por isso quero que chova muito para que brotem fortes e saudáveis os muitos "eus" possíveis, os quais serão agenciados pela, talvez ilusória, mas com certeza maravilhosa, idéia de um "eu" central. Parabéns pela idéia! Saiba que suas palavras foram uma chuva torrencial em minha vida!"

Idelmar Júnior

 

"adorei este texto! como sempre voce decompõe o composto; soprepõe o sobreposto e ainda assim depõe o gosto. um grande abraço"

Cleto Sandys

 

"Isto é Foucault? Tá lindo!"

Jorge

 

"Tá invejável, mas tá meio freud pa caramba, hein?! Se der, mande uma continuação nas próximas blogadas e postagens: dá um livro massa!"

João Paulo Santos Mourão

 

"Esse texto é maravilhoso. Parabéns!"

Daniela

 

"Muito bom, camarada, de muita inspiração."

Vevé

 

Escute me chapa.... O medo que temos de conceituar, é o medo de sermos coneituado. Ao conceituar, estamos impondo limites, aceitaveis ou não. Torquato não tinha ou não respeitava limites, tinha pressa de viver e esta pressa não o permitia vê-los. Talves seja por isso, que toda vez que estava sendo conceituado (capturado)ele pulava fora para escapar da conceituação.

Maurdeny [maurdeny@click21.com.br]

 

 

Escrito por Edwar às 16h22
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02/03/2005


Caetano disse que Nelson Rodrigues disse que o povo brasileiro e a janela e o povo brasileiro na janela. André Monteiro disse, dizendo Jim Morrinson, que estamos vivendo a masturbação do voyeur, cujo emblema é o espelho e cuja prece é a janela. E o povo brasileiro, de tanto ficar na janela, já está quase aprendendo que é, pelo menos, uma banda da banda. Certeau, trepado no 110º andar do wolrd trade center, ignorou a janela e, para além do discurso utópico urbanista e antes que os aviões se espatifassem, apontou a cidade invisível, onde o ato de caminhar equivale a uma enunciação. Jomard, o palhaço degolado, arrebentou os umbrais da janela escrevivendo a libertação da onça castanha que, livre, descobriu a impossibilidade da ilha Brasil. Um deus ariano irritou-se. Coisas da janela e do povo brasileiro na janela. Pernambucália, Torquatália, jogos de armar. Let's play that?  

Escrito por Edwar às 22h40
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Ressonâncias torquateanas

O texto que publico a seguir é parte de comentário feito pelo poeta João Paulo Mourão ao fragmento "pessoal e intransferível", de Torquato Neto, publicado neste blog. Eu o publico porque acho que ele testemunha em favor da possibilidade de um mesmo experimentar a experiência de um outro. E é esta possibilidade que me ensina a importância do outro como constitutivo de mim. Por um novo paradigma estético.

"Hoje, era ontem quando o amanhã me fez ressucitar em minha ignorante sapiência poética. Se Torquato fosse meu chapa, algum dia, eu teria sido ou estado num lugar-espaço ideal. Se a materialidade nos fez assim tão distantes, que a ilogicidade e a perplexidade assimétrica nos versos escassos nos faça mesmo visionários a sermos plagiáveis pela juventude revirada à deriva do devir! João Paulo-CACOS (Comunicação Social) UFPI 2005. Valeu, mestre!"

Escrito por Edwar às 22h03
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27/02/2005


Revista Pulsar

Na distanTeresina, a trisTeresina de Torquato Neto, os caras fazem, hoje, uma revista de cultura de altíssimo nível. E fica pulsando nossa esperança.

 

Escrito por Edwar às 21h44
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De onde vem o beijo?

Tenho pensado, ultimamente, nas palavras que, ao longo de muitos anos, foram capturando minha subjetividade e me constituindo. Penso em mim, agora, tomado tanto pela dúvida de Descartes quanto pelo lema de píndaro: como chegamos a ser o que somos? Lembro que o beijo não vem da boca, o que aprendi com Loyola. E sei que é doce recordar a imagem forte do Brasil derretendo-se ao sol, como uma montanha de sorvete, enquanto revivo o primeiro beijo no escurinho do cinema: "recendia a fruitela. foi bom". O cheiro de fruitela e o bom do primeiro beijo no escurinho do cinema são universais? Penso nas linhas que me cruzam e me dão a sensação de um território ao mesmo tempo em que me interrogo sobre as intersecções que me interpelam em sujeito. Anoto que sei que é possível experimentar a experiência do outro, o que me torna outro. Algo assim como um nômade que, para criar a ilusão das coisas fixas, agencia sua subjetivação em torno de máscaras tranquilizadoras que dão a sensação do mesmo. Anoto uqe é preciso pensar sobre:

1. Eu, enquanto ser constituído de palavras;

2. A palavra como um artefato de invenção que, ao ser friccionada, posta a funcionar, constitui o mundo ds objetos;

3. Eu múltiplo, longe da ilusão tranquilizadora do eu.

Escrito por Edwar às 21h33
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"afetos tristes"

Autor: André Monteiro

Buscar na Web "André Monteiro"

Quando: 2004

André gira sobre si mesmo, relendo/reescrevendo/reinventando Torquato Neto:

"A imagem de um escritor, quando nos interroga, produz buracos e nós imediatamente passamos a preenchê-los com estratégias confortáveis de uma boa novela, passível de uma comunhão didática e varrida de estranhezas. Queremos contar tudo: um rosto outro agarrado em um rosto mesmo. Um rosto sempre nosso a nos esperar lá atrás. Um rosto de propriedade privada: efeito e causa para uma identidade verossímil. A verossimilhança é, sem dúvida, uma das mais fortes e automáticas molduras de nossa civilização. Sua tradução dominante: a transparência biográfica de um rosto. Mas não seria justamente a verossimilhança um discurso capaz de interditar a vida na potência de seu acontecimento? Em nosso tempo, como nos ensina Jim Morison na série de The Lords, deu-se uma metamorfose: do corpo, enlouquecido pela dança, passamos à masturbação do voyeur cujo emblema é o espelho e cuja prece é a janela. Eis a nossa impotência: “Não atravessas nunca o espelho/nem mergulhas pela janela” (MORISON, 1994, p. 36). A impotência é a força dominante de nossas instituições sociais/individuais. Ela constitui, nos dizeres de Deleuze e Claire Parnet, nossos afetos tristes: “...Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesses em nos comunicar afetos tristes. Afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir...” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 75)".

Categoria: Citação
Escrito por Edwar às 10h14
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"por não estarem distraídos"

Autor: Clarice Lispector

Buscar na Web "Clarice Lispector"

Quando: 1978

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, as vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quando mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem distraídos.

Categoria: Citação
Escrito por Edwar às 09h45
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"Pessoal e intransferível"

Autor: Torquato Neto

Buscar na Web "Torquato Neto"

Quando: 1968

Quando eu recito, ou quando eu escrevo uma palavra, um mundo poluído explode comigo & logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte & fogo & morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim. Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. No princípio era o verbo. Existimos a partir da linguagem, saca? Linguagem em crise igual a cultura e/ou civilização em crise. O apocalipse, aqui, será apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica.

Categoria: Citação
Escrito por Edwar às 09h39
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