Pensamento e Arte


10/12/2006


Dil, Jota, as palavras e as coisas.

 

É assim: estou sozinho e então procuro, dentro de mim, as matérias que constituirão isto que vou te dizer. Quase vejo uma mão escarafunchando velhas gavetas a procura de algo. Não há poeira. É como aqueles móveis velhos que a gente lustra justamente para reafirmá-los velhos. Há pouco o telefone tocou. A voz do outro lado inoculou doçura em mim. Agora, ainda com a lembrança e com a sensação da voz do outro lado, eu vou mergulhando em mim. Claro. Sim, claro que lembro. Sempre lembro de Marcel Proust quando escarafuncho o tempo perdido. Ainda ontem Jota, com limpos acordes de violão, me deu uma boa dose desse tempo. E eu viajei maximamente na possibilidade desse mergulho. A canção era muito linda e agora, com o fantástico tagarelando lá na sala, eu fico me esforçando, em vão, pra reouvir os acordes. É danado esse negócio de lembrar. É quase como lombrar. Eu sorria loucamente enquanto dava voltas em torno do abrigo, em PIO IX. Fora só unzinho, mas eu chapei. Dil ficou puto. Me botava no carro e dizia “meu irmão, cê tá um verdadeiro porta bandeiras. Todo mundo tá se ligando”. E eu prometia que não ia mais rir. Mas não conseguia. Agora me lembro que já não lembro mais como terminou. Mas foi bom. E me trouxe até aqui, onde posso ver em panorâmica o bom do bom. E ao dizer isso eu penso na relação entre as palavras e as coisas. E decido que, quando terminar essa cerveja, vou inventar uma ou duas palavras novas. Ainda que velhas, mas eu as lustrarei.

Escrito por Edwar às 22h00
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