Tempo, eis um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho Havia sol, mas eu lembro que havia uma aguinha fria na floresta de mata-pasto por dentro da qual eu corria com meus amigos. As folhas molhadas, as quais traziam de volta a sensação da chuva da madrugada, roçavam em minhas canelas e exalavam um cheiro que não sei descrever. Sei que era bom. Não lembro agora o rosto de meus amigos. Mesmo alguns nomes já se perderam. Mas ouço Mesquita, Ivan, Bertinho e Naka arfando ao meu lado enquanto corremos em direção ao curral de Chiquinho de Lulu. E então se deu o meu primeiro contato com o tempo. Aconteceu, pela primeira vez comigo, essa coisa de saber que o tempo passa. Até então eu estava suspenso num instante mágico. As casas de esquina, como a minha, tinham oitões em torno dos quais a molecada da rua vivia a vida. Jogávamos bila (alguns chamam bola de gude), empinávamos papagaio, imitávamos os espetáculos do circo, chutávamos uma bola de plástico com o nome de Pelé e dávamos os nossos primeiros passos rumo à paixão. – Menino, tu viu o Mesquita? – Tá lá no oitão do Castelo! Era sempre assim. O oitão, terreno baldio que teimava em existir ao lado das casas pobres de esquina, era uma espécie de lugar sagrado para nós. O nosso shoping center. Apenas agora, depois de décadas sofrendo o tempo, espoucando rojões no reveillon, me dou conta de que o que tornava mágicos os oitões era o fato de que ali o tempo não passava. Pelo menos não passava até o fatídico dia em que corremos em direção ao curral de Chiquinho de Lulu. Aquele não era um curral comum, pois Chiquinho, o pai de Naka e dono da mais importante bodega da cidade, era rico. O seu curral, o qual ficava ao lado do de seu Quinco Tonheira, o pai de Ivan, tinha a parte frontal composta com alvenaria. Ao invés das costumeiras cercas de freixeira apontando suas varas pontiagudos para o céu, o curral de Chiquinho exibia um muro de tijolos avermelhados e envelhecidos. Lembro que em algumas partes os tijolos estavam carcomidos, esfolados, assim como se alguém os tivesse raspado com uma colher de pedreiro. Não era isso, certamente, mas o que nós – pelo menos eu – pensávamos, era sempre alguma explicação que livrava o tempo de sua culpa. Nós nem sequer tínhamos a noção de novo e velho, pois esse contraste não se exibia para nós como o faz agora. Mas então deu-se minha descoberta do tempo: certamente antes da chuva que abençôou a cidade durante a madrugada, alguém escreveu, por sobre o muro avermelhado e em uma cor amarelo berrante, a expressão “Adeus ano velho feliz ano novo”. Não havia vírgula ou outra pontuação qualquer, apenas a expressão berrando em nossa direção. Lembro que paramos o nosso trote a ficamos alguns minutos admirando a frase pichada na parede. Já não lembro mais dos comentários que fizemos, tampouco de nossa aventuras subsequentes naquele dia. Mas sei que deu-se ali o meu encontro com o dolorido aprendizado de que o tempo é algo que flui independente de nossas vontades, nos atropelando.



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