O que é um autor?
Vem de dentro de mim, assim como um rio que jorra em direção ao mar, o questionamento que faço agora: onde a fronteira entre autor e leitor? Onde a fronteira entre eu e você? São pedaços de mim que eu te ofereço, assim como quem rasga o último chiclete e o aponta em direção a ti. Mas não se iluda: não te dou apenas a mim. Não consigo ser só eu. Do mesmo modo: você não coincide consigo mesmo. E olhe que não se trata de metamorfose ambulante ou coisa do tipo. É uso. O que expresso revela a deformação de discursos que me antecederam e aos quais não é possível usar sem os desalojar. É como o vinco da calça bem engomada que vai desaparecendo à medida que a uso. Olhei detidamente as metáforas de Jessier Quirino; ouvi atentamente os textos de Foucault; disse calmamente os impropérios de um taxista insano; proferi solenemente a oração que aprendi para a primeira comunhão; atarantado pelos automóveis, meus olhos foram varados pelo neon, enquanto Ismália, ensandecida, pôs-se na torre a sonhar; três da madrugada, tudo e nada. Você me chama. E eu vou. Por que não? Lembro que quando saí de casa trouxe a viagem da volta gravada na minha mão. Todos os fatos que explico, portanto, são atos de criação. Ops! De deformação. Punição. Eis: os textos só passaram a ter autores na medida em que os discursos se tornaram transgressores e, então, os censores precisaram contê-los na origem. Então é isso aí: pedaços de mim, que finjo ser eu, pra você, que pensa ser um idêntico a si mesmo. Curiosamente, quem viveu todos os dias de paupéria também comprou Don Quijote de la mancha. Entendeu?



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