É preciso dizer de novo: Não apresse o rio, ele corre sozinho.
Traga-me um copo d’água, tenho sede. Tenho porque tenho esta sede que não cessa. Você sabe de que sede estou falando? Isso! Apenas sede. E é incrível como esta sede, de repente, me coloca em um tubo de tempo e eu ouço Gil cantando e imagino as grades da prisão que lhe prendiam e inspiravam. Volto a mim. Calculo lentamente o espaço que me separa da geladeira. Também lentamente roço a língua no céu da boca e fico pensando em Marcel Proust. Prolongo mais um pouco a minha sede para utilizá-la como instrumento de busca do tempo perdido. Minha língua. Minha boca. Sorrio sorrateiramente agora (não o sorriso entredentes de Torquato, mas um sorriso de repente) quando imagino um turbilhão de sensualidade. Tudo por causa da minha sede. Então concluo que tudo está dialeticamente recoberto por dois lados antagônicos. Tudo é bom e ruim, a depender do uso que damos às coisas. Mais uma vez minha língua, meu céu da boca, minha sede. Vou saborear a água que beberei com sofreguidão, mas sem pressa. E estarei ouvindo um hino da gestalterapia – “não apresse o rio, ele corre sozinho”



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