Pensamento e Arte


25/09/2007


a magrela

 

ao geraldo castelo.

 

era uma magrela desajeitada. minha vó diria que ela era “desaconsoada”. era mesmo desconsolada, desbotada, démodé. mas eu a adorava. não que tivesse sido com ela a primeira vez, mas com ela o zunido do vento em meus ouvidos fora diferente. também pudera: ela compunha o quadro, quase surreal, dentro do qual eu vira, pela primeira vez, a luz neon pintando a rua noturna de uma cidadezinha que eu então enxergava grande. eu sei que já te contei isso e que você agora, exatamente no momento em que o seu olho cai sobre o último “n” com o qual grafei neon, proclama que eu sou repetitivo e chato e que não quer mais seguir comigo. então eu olho em volta e, só me restando o teclado, além de você – que me enxerga fosco por detrás da imensidão de modens, placas, bits e fios que nos separam e conectam –, me ocorre redizer que eu sou amável e terno, medroso, manhoso e dengoso. sou lírico e trágico como vicente celestino. e acho que tinha mesmo algo de ébrio em meu encontro com a magrela. não me lembro quando a vi primeiro. não sei onde, dentro daquele quadro de neon, eu a segurei, montei nela e cavalguei sofregamente com o vento açoitando minhas orelhas. você deve dizer que eu minto porque, afinal, como dizer que não lembro se sinto, ainda, a sensação do vento em minhas orelhas? tá certo. se sinto minto então são mentiras as coisas que te digo agora. mas foi. creia. ao longe operários recolhiam suas ferramentas depois de um árduo dia de trabalho numa pracinha em reforma. a noite caía lenta e preguiçosamente. alguns postes, altivos, eclodiam suas luzes iluminando a rua que mergulhava na semi-penumbra. eu imaginava minha mãe fazendo algo que eu jantaria daqui a pouco. a pracinha agora, já sem o vai-e-vem de operários ávidos por suas casas, mulheres, meninos e novelas, parecia uma árvore de natal. baldes de plástico, de diferentes cores, balançavam em um cordel com luzes acesas em seu interior sinalizando valas abertas durante o dia. lembro que achei genial a idéia da demarcação com baldes. lembro agora que não me lembro se vi isso em outro lugar, em outras ocasiões. lembro que no interior do bar (seria uma mercearia?), em cuja calçada eu inundava meus olhos com as luzes dos postes e dos baldes pendurados, podia adivinhar meu irmão bebericando cervejas com seus amigos. a magrela, encostada à parede em sua impensável beleza desajeitada, provavelmente me fitava. mas eu, certamente, não pensava nela. estava muito ocupado enchendo minhas retinas com as luzes daquela quase noite. talvez, quem sabe, eu adivinhasse que precisaria dessas luzes-metáforas para contar, agora, este conto que conto a você. então o meu irmão emergiu do interior do bar. eu ouvia suas passadas e tinha certeza que era o seu caminhar. eu sempre fui bom nesse negócio de sacar os caminhares. me voltei para ele com restos quase ofuscantes de luz em meus olhos. ele não deu qualquer pista de que compreendia/desconfiava/sacava minha suruba ótica. sorriu. sua barba e hálito chegaram tão perto de mim, quando ele me falou, que lembro ter desejado prolongar maximamente o momento. ele me disse: ­– é macho mermo?! eu assenti, sorrindo. ele então avançou a senha mágica: se você tiver coragem de ir sozinho, pedalando, pra casa, a partir de hoje essa magrela é sua. eu não lembro o que respondi. na seqüência, minha lembrança alcança apenas um moleque pedalando velozmente pela avenida brasil, em maringá. enquanto a zona dois ia ficando para trás, e o vento assoprava segredos em meus ouvidos, eu pedalava minha primeira bicilceta.

Escrito por Edwar às 21h29
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