Eu quero re-bobinar
o filme acabou, mas eu segui acompanhando o letreiro com atenção. não importavam, tanto, os créditos e toda aquela chatice que segue embalada por um sobe e desce infindável de nomes que parecem ter sido colocados ali pra ninguém prestar atenção. na verdade, nem mesmo na perda de tempo eu pensei naquele instante. eu me esforçava pra ver o outro lado, assim como quem espia pelo retrovisor, em uma curva, na luta inglória por continuar enxergando o que, como se sabe com toda certeza, os olhos sempre perdem de vista. encontrei, naquele letreiro, um pretexto pra pensar o além do fim. foi um lampejo. me ocorreu ali, naquela hora, que só sei ser plug-in. e não me refiro, nem pense nisso, aos bits que nos conectam agora, mas aos plugs invisíveis, sensíveis, através dos quais nos conectamos uns aos outros. ontem eu ouvi fredie e fiquei morrendo de saudade de mim. era uma tarde quente, aquela, quando queen elizabeth olhou e piscou pra mim. in memoriam pacem. então, com o letreiro, eu pensei: puxa, no melodia tem uma mina que gosta de mim. hoje eu ouvi eliane e fiquei morrendo de saudade do tempo que correu velozmente nos últimos cinco anos. desafinado, o melodia não é mais. eu adorava uma camisa vermelha, cafona, que me matava de calor. então me deu uma vontade danada de pegar o controle remoto e rebobinar. voltar a ser bobo. um poeta sem eira na beira de um colapso nervoso. o letreiro seguia e eu procurando engatar uma marcha ré. boa viagem. eu lembro, agora, da moça bonita que jamais pude ver na praia de boa viagem, mas cujo hálito eu sei ter o gosto do sol. amanhã eu ouvirei alceu valença e, com todo cuidado, vou escolher a saudade que irei sentir. sim, porque, por hoje, os quatro cantos me parecem vazios e silenciosos. são o marco zero. zaping. vídeo of my life: chuvisco...



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