Pensamento e Arte

Citação


27/02/2005


"afetos tristes"

Autor: André Monteiro

Buscar na Web "André Monteiro"

Quando: 2004

André gira sobre si mesmo, relendo/reescrevendo/reinventando Torquato Neto:

"A imagem de um escritor, quando nos interroga, produz buracos e nós imediatamente passamos a preenchê-los com estratégias confortáveis de uma boa novela, passível de uma comunhão didática e varrida de estranhezas. Queremos contar tudo: um rosto outro agarrado em um rosto mesmo. Um rosto sempre nosso a nos esperar lá atrás. Um rosto de propriedade privada: efeito e causa para uma identidade verossímil. A verossimilhança é, sem dúvida, uma das mais fortes e automáticas molduras de nossa civilização. Sua tradução dominante: a transparência biográfica de um rosto. Mas não seria justamente a verossimilhança um discurso capaz de interditar a vida na potência de seu acontecimento? Em nosso tempo, como nos ensina Jim Morison na série de The Lords, deu-se uma metamorfose: do corpo, enlouquecido pela dança, passamos à masturbação do voyeur cujo emblema é o espelho e cuja prece é a janela. Eis a nossa impotência: “Não atravessas nunca o espelho/nem mergulhas pela janela” (MORISON, 1994, p. 36). A impotência é a força dominante de nossas instituições sociais/individuais. Ela constitui, nos dizeres de Deleuze e Claire Parnet, nossos afetos tristes: “...Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesses em nos comunicar afetos tristes. Afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir...” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 75)".

Escrito por Edwar às 10h14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

"por não estarem distraídos"

Autor: Clarice Lispector

Buscar na Web "Clarice Lispector"

Quando: 1978

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, as vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quando mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem distraídos.

Escrito por Edwar às 09h45
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

"Pessoal e intransferível"

Autor: Torquato Neto

Buscar na Web "Torquato Neto"

Quando: 1968

Quando eu recito, ou quando eu escrevo uma palavra, um mundo poluído explode comigo & logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte & fogo & morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim. Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. No princípio era o verbo. Existimos a partir da linguagem, saca? Linguagem em crise igual a cultura e/ou civilização em crise. O apocalipse, aqui, será apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica.

Escrito por Edwar às 09h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]
 

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, TERESINA, Homem, Livros, Música, cinema

Histórico


>