"afetos tristes"
Autor: André Monteiro
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Quando: 2004
André gira sobre si mesmo, relendo/reescrevendo/reinventando Torquato Neto:
"A imagem de um escritor, quando nos interroga, produz buracos e nós imediatamente passamos a preenchê-los com estratégias confortáveis de uma boa novela, passível de uma comunhão didática e varrida de estranhezas. Queremos contar tudo: um rosto outro agarrado em um rosto mesmo. Um rosto sempre nosso a nos esperar lá atrás. Um rosto de propriedade privada: efeito e causa para uma identidade verossímil. A verossimilhança é, sem dúvida, uma das mais fortes e automáticas molduras de nossa civilização. Sua tradução dominante: a transparência biográfica de um rosto. Mas não seria justamente a verossimilhança um discurso capaz de interditar a vida na potência de seu acontecimento? Em nosso tempo, como nos ensina Jim Morison na série de The Lords, deu-se uma metamorfose: do corpo, enlouquecido pela dança, passamos à masturbação do voyeur cujo emblema é o espelho e cuja prece é a janela. Eis a nossa impotência: “Não atravessas nunca o espelho/nem mergulhas pela janela” (MORISON, 1994, p. 36). A impotência é a força dominante de nossas instituições sociais/individuais. Ela constitui, nos dizeres de Deleuze e Claire Parnet, nossos afetos tristes: “...Vivemos em um mundo desagradável, onde não apenas as pessoas, mas os poderes estabelecidos têm interesses em nos comunicar afetos tristes. Afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir...” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 75)".



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